O Homem de Copacabana 02.2005

9 Jan

 

O Homem de Copacabana

 

 

Absorto em meus pensamentos, atravessava a esquina da Barata Ribeiro com Nossa Senhora, invisível, irreconhecível, sabia que estava protegido pela multidão apressada, gente de todos os tipos, isto me reconfortava, um anonimato natural, um ostracismo voluntário.

Já fazia muitos meses que eu não falava com ninguém. Meus breves contatos humanos em bares, supermercados ou restaurantes eram sempre impessoais e monocórdios.

Os únicos lugares onde eu desenvolvia algum breve assunto eram as saunas e termas da região, pois nelas eu me sentia seguro, afinal todos buscavam a discrição, mas mesmo assim eu era cuidadoso em variar de uma para a outra, a fim de que nunca fosse considerado um habituê.

Nem mesmo antes ou durante as trepadas melancólicas eu falava com as profissionais; entrava, bebia algumas cervejas, escolhia o objeto para meu alívio e fodia sem deixar vestígios.

Conhecia como um rato todas as quebradas possíveis do bairro,os melhores traficantes, os melhores puteiros, saunas, casas de massagem, os melhores muquifos e qualquer outro buraco onde nunca seria notado..

Sempre procurei andar o mínimo possível durante o dia,minha atuação começava invariavelmente no período noturno. Rastejando pela madrugada de Copacabana e respirando devaneios e perversão, minha peregrinação doente era a válvula de escape de todas as paranóias e depressões deste vazio existencial que consome nossa sociedade angustiada pelo ego e consumo.

Basicamente minha rotina era muito simples, dormia durante o dia, acordava lá pelas 4 da tarde, acendia meu baseado, comia restos em um restaurante a quilo e me recolhia em casa até a meia noite, este período de recolhimento era dedicado a pesquisas pela  internet,dentre estas pesquisas, a de maior satisfação  era sobre as putas e os preços da região, conhecia tudo, me inteirava das cotações e negociações.

Baseado atrás de baseado eu me preparava para mais uma noite de luxúria matutando qual seria o evento da noite: “Garotas da Pista”, “Prado Jr”, “Termas”, “Putas em Casa”, “Casa de Swing” e assim por diante, como era doce fantasiar neste tão variado leque de perdição, ia manipulando o meu pau horas a fio preparando a arma para mais uma madrugada de delírio sem razão.

Quando chegava a hora da loucura eu saía como um vampiro, uma leve ansiedade comprimia meu estômago, uma excitação sem igual atormentava esta alma tão desvairada. Foram muitas vezes que eu me confundi com a noite, como se não respirasse mais, como se eu fosse um espectro vagando sem rumo em uma atmosfera gelatinosa, de ar pesado.

Eu não me sentia mais.

Como se fora um psicopata muitas putas me evitavam, com medo de meu visual abjeto e desesperado.

Algumas vezes pela própria limitação geográfica eu esbarrava com outras criaturas em igual estado de devaneio e vazio existencial, alguns se aproximavam, mas eu sempre arrumava um jeito de desaparecer ou mudar radicalmente meus hábitos.Não cumprimentava ninguém, não conhecia ninguém.

Confesso que muitas vezes me espantei com tamanha voracidade, tanto de putas profissionais como de mulheres loucas nas casas de swing, taras que beiravam a angústia , agonia e insaciabilidade.

Copacabana na madrugada, minha casa, meu quarto. Todos meus fantasmas, meus amigos nesta longa jornada.

Sem dúvida uma fase onde qualquer forma de reflexão seria inútil. A reflexão era sempre sobre a qualidade da maconha, das putas e da onda.

Um mundo particular de devassidão.

Dentre todos os eventos a Casa de Swing sempre foi imbatível em termos de emoção,sempre imprevisível, com aquelas mulheres transfiguras em sua pureza nas mais hediondas prostitutas, liberadas das regras morais da sociedade, e com o aval de seus maridos dando vazão a seus instintos canibais.

Após estas surubas era com prazer que eu me banhava horas a fio na tentativa de me esvair daquela energia e cheiros pútridos. Mas no fundo nada adiantava pois sabia que  estava impregnado de sexo e variedade em meu corpo e mente.

Gostava muito de freqüentar os puteiros mais medonhos, fétidos com suas criaturas decadentes. Nestes ambientes eu sempre fazia questão de negociar ao máximo e barganhar os preços, em um hábito de libidinosa  mesquinhez…

Um monstro.

Sabia que me transformara em um monstro, minha pele era amarela, meus olhos fundos, alergias habitavam minhas virilhas e meu pau cheirando a látex e flora vaginal alheia.

Um monstro.

Este processo era calculado, tudo dentro de meus planos, entregue a intuição me esbaldava no mar alto da depravação.

Assim passavam se os meses e minha atmosfera pessoal ia se tornando cada vez mais caótica e sombria dentro deste universo restrito de atividades.

Me integrei ao ambiente e sua quantidade sem precedente de mendigos, marginais, traficantes, putas e cafetões infestando o bairro de perdição e contravenção.

Copacabana.

Pobre dos velhos e honestos , vitimas contumazes dos trombadinhas, punguistas e golpistas de toda sorte, ninguém era confiável. Do eletricista charlatão ao traficante vendendo mistura o importante era abrir os olhos para sobreviver nesta selva de animalidade.

Com que saudade eu me recordo dos verões intermináveis e suas madrugadas quentes,povoadas de turistas sexuais e uma variedade incrível de estrangeiros abjetos, homosexuais pervertidos e pedófilos. Durante o verão as atividades ilícitas atingem um grau muito maior de agitação, muitas putas se transferem para a região no intuito de abocanhar os dólares e o pobre dinheiro dos incautos, loucos e carentes de outros paises.

Enquanto este panorama se desenrolava eu ia me divertindo e gastando todo dinheiro que ainda me restava.

Tudo seguindo seu ritmo

Nesta toada eu empurrava a minha existência rumo ao abismo social e pessoal, serenamente em minha depressão oculta.

O plano de me tornar um fantasma e cultivar a minha promissora célula adormecida.

Quando você é um anônimo o mundo parece um aquário, passa-se despercebido pela sociedade, sem documentos, CPF, imposto de renda, bens, ou qualquer coisa que remeta a uma existência comum…

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