Crônica Corporativa 120 dias em outro planeta.

10 Dec

Crônica Corporativa 120 dias em outro planeta.

Por essas bandas ninguém sorri, parece que paira no ar uma atmosfera mais densa, talvez seja a poluição do ar, talvez o excesso de números, resultados, cobranças, contas e papéis.

Os e-mails também são revestidos de uma camada de formalidade, tudo deve ser feito com cuidado, cada palavra medida, cada comentário pensado, tudo registrado, afinal mais cedo ou mais tarde algo será cobrado, ou mesmo servirá de prova, contra ou a favor de você.

E eles se avolumam em uma enxurrada de pedidos, satisfações, respostas, uma comunicação delicada onde cada detalhe pode servir para gerar um efeito cascata de problemas.

E não se esqueça que no mundo corporativo só depois de muito relacionamento pode-se terminar um email mandando um beijo, cuidado isso é perigoso, pode soar como um assédio, termine os e-mails com : um abraço, atenciosamente, e em inglês, best regards.

Alguns me dizem que esse é o mundo real, onde os fatos movimentam a economia, o mundo empresarial, das responsabilidades, do que é sério, estamos na locomotiva!

As formalidades se repetem em eventos corporativos, convenções e palestras.

Cartões e crachás

Nesses ambientes o primeiro contato visual entre as pessoas se dá na região do plexo peitoral, habitat dos crachás. Esses crachás tem o seu nome, mas principalmente o nome da empresa na qual você trabalha. As pessoas são formalmente apresentadas (sem beijo no caso homem/mulher) e trocam um singelo olhar crachá/crachá, afinal se eu sou Marcos e você Jorge ou Julia, isso é um detalhe, o importante é de onde você é: Marcos da Abrahams, Julia da Cargill, José do Citibank.

Passada a fase dos crachás vamos para um momento mais íntimo que se repete nas visitas a clientes, entrevistas e reuniões: a troca de cartões. Esse já é um passo mais aprofundado, você repara na qualidade do cartão, o e mail, telefone e principalmente: o cargo!

Afinal os cargos classificam outro sistema fundamental dessa engrenagem:

A Hierarquia

Nesse planeta corporativo a hierarquia adquire a forma mais clássica de poder.

Muitas vezes disfarçada de outros codinomes como “estilo de gestão”, isso para determinar se o “chefe” é bravo, estúpido, doce, etc… mas mesmo disfarçado de democrático, ou acessível, ou flexível , quando apertar o cinto é simplesmente o chefe! O dono da bola! Quem sustenta e paga as contas, o dono da verdade.

Essa hierarquia obviamente não é exclusividade desse planeta, mas aqui ela vem mais forte, no andar mais alto, no poder de decisão, no prestígio estrutural.

Na verdade aqui encontramos semelhanças com meu outro planeta, muita “babagem” ( termo chulo que designa “baba ovo”, “puxa saco”), isso é universal.

Por incrível que pareça nesse planeta a burrice impera igualmente, até um pouco mais, afinal a variedade de tarefas e funções possibilita uma gama ainda mais variada de humanos realizando tarefas das mais complexas as mais idiotas com variados graus de competência e estupidez. È muita gente, muito processo, e onde temos processos temos furos, onde temos gente temos erros.

Notam-se também diferentes tipos de solidão.

A solidão do “dono”, como eles sofrem com o descompromisso de seus empregados e suas agendas pessoais, o “dono” e sua dor, sua angústia de ter de cuidar de tudo, pois seus empregados em geral estão mais atentos ao calendário dos feriados e não estão preocupados com o cash flow e os resultados, isso machuca os “donos”.

Os “non fit” também vivem em agonia por estarem em lugares errados, cumprindo funções ou além ou aquém de seus limites físicos. Psicológicos e emocionais. Tarefas mecânicas e repetitivas que os transformam nos “atômatos” de Issac Ashimov. Em geral esses autômatos erram muito e são torturados pelos carrascos que se acham no direito de serem mais inteligentes, mas que na verdade são autômatos um pouco mais upgradeados ou a mais tempo nas trincheiras.

Outra característica desse planeta é:

Confinamento

Presos em escritórios padronizados os funcionários ficam enclausurados como que em celas de uma prisão, reparam uns nos outros, nas roupas, nos fingimentos, nos falsos “bons humores”, na obrigatória tolerância mútua.

As vezes me parecem controladores de vôo, presos em suas telas de computador, controlando contratos, agendas, resultados.

Todos se controlam indiretamente, quem está no banheiro, quem é porco, os perfumes, no fundo é uma cela de prisão com design padronizado corporativo, mesas, estações de trabalho, ar condicionado.

Não tem como fugir, é um tipo prisão domiciliar as avessas: preso durante o dia e pode voltar pra casa a noite.

Nesse confinamento cria-se um sistema teatral de papéis, os menos talentosos e mais espontâneos naturalmente se dão mal, geram antipatia por serem menos fingidos pois a cultura corporativa exige a “não reatividade” e isso implica em ser frio, calculista, mesmo perante uma sucessão de imbecilidades de subalternos e chefes. Não reaja, espere a hora e forma correta, deixe passar…

Glossário Template

Nesse planeta temos um dialeto padrão que disfarça um monte de subjetividades mascaradas em padrões que classificam as pessoas dentro dos padrões dos clientes e avaliadores.

Tem um procedimento, um tipo elaboração de cifra musical que se chama “entrevista por competência”. Quanto mais bitolado o inquisitor mais eficiente o resultado. Esse procedimento escolheu o “comportamento” como referência de análise das vítimas.

Não faça perguntas abertas! Procure por exemplos objetivos! Peça descrições concretas!

As competências disfarçadas de Stravinsky me soam mais como Victor e Léo:

-Orientado para resultados

-Resolução de problemas

-Liderança

-Foco no cliente

-Agilidade organizacional

Dentro dessa gama de temas existem seus desdobramentos, muitos subjetivos, direcionados.

Mas lembrem-se estamos avaliando comportamentos!

Os testes são comportamentais! Quase nunca falamos de valores, capacidade de raciocínio, quociente de energia, QI, etc… Então podemos ter um sensacional profissional orientado para resultados que enche a mulher de porrada e é um burro!

Outros termos se enquadram nos níveis mais altos, nos diretores, CEOs, COO, CFOs,CDO, C qualquer coisa, afinal a tendência de nossa época são as estruturas matriciais, com suas Business Units, se cruzando com Controllers, RHs, que servem a diferentes Bus com seus códigos, reports, padrões e confusões.

Temos o glossário dos “jantares inteligentes” do Pondè aplicados ao mundo dos negócios:

-estilo de gestão…

-pitch

-Governança

-margens

-sustentabilidade

-energia renovável

-Private equitys

-inovação

-network

-IFRS,US GAAP

-visão estratégica, ops! Isso está enquadrado em competências!

Outfits

Padrão para altura de saia, padrão de roupa social, gravatas, barbatanas de golas de camisa, paletós, tailleurs, sapatos, nesse planeta tudo tem padrão, você é avisado de como tem de se vestir, isso é legal!

Almoços

Olha o horário de almoço desses habitantes é um caso a parte! Nessa hora os crachás exibidos nos eventos ficam escondidos nos bolsos???? Isso eu ainda não entendi, nos eventos é muito importante saber de onde você é, na hora do almoço você deve esconder seu crachá no bolso assim ninguém sabe que você é! Ainda vou descobrir o porquê…

Em bandos, os almoçantes criam seus sub grupos, os “aliados” da empresa com os quais você almoça, e invarialvelmete adivinhem qual a temática das conversas: falar mal dos não presentes, rezar em comunhão para que chegue a sexta feira logo e criticar os chefes!

Nos almoços mais qualificados fora do ambiente “por kilo” a temática em geral é mais mais abrangente e qualificada, resultados, parcerias, stock options, estratégias, alinhamento, gestão, budgets, etc… Tudo caindo no mesmo tom: GANHAR DINHEIRO!

Obviamente esse planeta não é uma espécie de purgatório onde os seres perseguem ascensão profissional, aumentos de salário, conexões, alianças e network capaz de alavancar suas ambições e expectativas de ter um carro gigante, um apartamento poderoso, e viajar para o exterior e fazer compras!

Existe muita preocupação cultural, reflexão filosófica, discussão espiritual….brincadeiras a parte, coisas bacanas acontecem, existe um  certo código de meritocracia mais estruturado, em geral os melhores vão mais longe, pois não existe nada mais cínico do que o mundo artístico com sua falta de estrutura e institucionalização para elevar a status de Deuses um exército de cantores desafinados, compositores cafonas, músicos medíocres, periguetes popozudas e um conceito de guetinhos de modernosos que alçaram nossa música popular a um patamar de pobreza espiritual em seus desfiles de moda, rodeios, bailes funk e a estética febril de brechó imposta pelos jornalistas, produtores e críticos que transformaram o conceito de curadoria em uma reunião para escolha de amigos nerds, sem brasilidade, suingue e conteúdo, o mundo líquido, a vingança dos virtuais, das redes sociais, da viralidade demente da web e dos retardados dos blogs.

Relatórios, pareceres, EBTdas, benefícios, tabelas, Nfs, resultado operacional, avaliações,bottom line!

Vamos nessa que a concorrência está avançando!

PS. Esse artigo não representa minhas opiniões pessoais, é uma obra de ficção com todos os direitos reservados.

 

 

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